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Reconstrução costurada à mão: arquiteta de Porto Alegre recria carreira após perder tudo na enchente

Foto do escritor: Territorialize
Territorialize
2 de jun.
4 min de leitura

Aos 51 anos, Tatiana Freitas transforma papelaria artesanal em rota profissional para apoiar filha atípica


Para Tatiana, a família é o porto seguro que a permite ser mãe, mulher e empreendedora
Para Tatiana, a família é o porto seguro que a permite ser mãe, mulher e empreendedora

Mãe de três filhos, Tatiana Freitas sonhava em ser arquiteta desde a adolescência – um projeto que só conseguiu concretizar aos 47 anos. Nascida em uma família de poucos recursos e sem incentivo aos estudos, viu os planos profissionais serem adiados quando engravidou da primeira filha, aos 21 anos, e passou a dedicar-se integralmente à maternidade e ao sustento da família.


Mais tarde, casou-se novamente, teve outros dois filhos e passou a enfrentar uma rotina especialmente desafiadora. O filho Leonardo convivia com graves problemas de saúde e era internado com frequência, enquanto sua mãe demandava cuidados permanentes em razão de uma doença crônica degenerativa.


As mudanças na vida de Tatiana começaram aos 38 anos, quando decidiu refazer o Enem. Com o resultado, ela conquistou uma bolsa integral em uma faculdade privada. Conciliando as demandas da casa, da família e dos hospitais, levou quase uma década para concluir a graduação, mas, aos 47 anos, o diploma finalmente estava em suas mãos.


Em 2021, a empresa onde trabalhava alterou seu regime de contratação para prestação de serviços. A mudança foi um incentivo para abrir o próprio escritório, e o negócio começou a prosperar. O avanço, porém, durou pouco. Moradora do bairro Sarandi, em Porto Alegre, Tatiana perdeu a casa, os móveis e o escritório recém-estruturado durante a enchente histórica de 2024. “Foi muito duro. Em dez horas perdi a independência financeira que levei dez anos para construir”, relembra.


O diagnóstico e o caminho para a mudança de rota


No período de reconstrução após a enchente, a dinâmica familiar também mudou drasticamente com o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) da filha Yasmim, de 15 anos. As barreiras de inserção social da adolescente, que já vinham se manifestando há algum tempo, passaram a exigir uma presença materna ainda mais constante em casa. “Precisei reaprender a me relacionar com ela. Tinham sido 15 anos sem que eu conseguisse entendê-la e agora era o momento de oferecer o suporte de que ela precisava”, revela.


Tatiana ao lado de uma amostra de seus produtos
Tatiana ao lado de uma amostra de seus produtos

A rotina da arquitetura, marcada por visitas frequentes a obras e horários imprevisíveis, mostrava-se incompatível com a nova realidade familiar. Em busca de alternativas, Tatiana ingressou na capacitação Avança Mulher Empreendedora, promovida pela Territorialize em parceria com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, e começou a enxergar novos caminhos profissionais.


Durante as aulas, um hobby cultivado desde a juventude ganhou contornos de oportunidade de negócio: a papelaria criativa. Tatiana identificou a encadernação artesanal como um nicho viável e alinhado às suas habilidades. A proposta era produzir planners e cadernos costurados à mão, com capas e miolos personalizados de acordo com o estilo e a identidade de cada cliente. “A área criativa é minha essência. No fundo, só mudei o produto. Continuo traduzindo as necessidades das pessoas em cores, formas e materiais”, explica.


O impulso final veio com a participação em outro projeto, o Mulheres Transformam, este realizado em parceria com o Instituto Vakinha. Com o capital semente recebido, ela adquiriu os insumos necessários e lançou, em 2026, o Ateliê Libélula Azul – nome e símbolo que remetem à transformação e à resiliência.


O propósito de um negócio que nasce da união familiar


Com a encadernação artesanal, Tatiana busca incentivar a desaceleração e a reconexão das pessoas consigo mesmas por meio da retomada do hábito da escrita, especialmente entre jovens cada vez mais imersos nos ambientes digitais.


O propósito nasceu justamente da reaproximação com a filha e da união da família. Quando a adolescente recebeu a orientação de utilizar um caderno para registrar suas emoções por meio da escrita terapêutica, Tatiana percebeu que poderia levar os benefícios dessa prática a mais pessoas por meio do seu trabalho. “Ganhar perspectiva por meio dos pensamentos escritos é sair da tempestade e olhar a chuva de possibilidades pela janela. Se eu contribuir para isso, para ajudar a transformar a vida de uma pessoa, já cumpri meu papel. É meu pequeno efeito borboleta", afirma Tatiana.


Migrar do mercado tradicional para o trabalho realizado em casa exigiu de Tatiana o desapego aos cronogramas rígidos. “Vestir a camiseta de mãe é desafiador. Muitas vezes não é possível cumprir planejamentos porque surgem demandas inesperadas. É preciso ter flexibilidade para refazer tudo, sem encarar isso como um peso. Refaço o planejamento quantas vezes for preciso. A maternidade não é um peso, é o que orienta minhas escolhas diárias.”, avalia Tatiana.



Como mãe atípica, ela afirma sentir ainda mais a necessidade de flexibilidade, readequando compromissos e planejamentos até mesmo ao longo do dia. Esses ajustes só têm sido possíveis graças ao apoio da família.


Para Tatiana, a família, fortalecida pelos desafios enfrentados durante a pandemia e após a enchente, é um dos principais pilares da sua nova trajetória empreendedora. “Não tem como a mulher andar sozinha. A minha família é meu porto seguro. Mesmo eu estando à frente, eles me abraçam e me apoiam quando preciso. É muito triste quando vejo nos grupos quantas mulheres não têm esse apoio. Muitas enfrentam tudo sozinhas, estão sozinhas na própria casa”, observa a artesã.


Para ela, o empreendedorismo feminino envolve desafios constantes e só se sustenta por meio da troca e do apoio coletivo. “É um trabalho árduo, solitário, porque às vezes, não tem com quem trocar ideia, não tem parâmetros. Por isso, as redes são tão importantes”, aponta Tatiana.


“Mesmo sendo mães, não podemos desistir de empreender. As mulheres têm muita força. Nem todos os dias são bons, mas a gente tem que ter força, inclusive para sair de situações de abuso. Até pela questão mental, emocional, é preciso encontrar uma forma – não de abandonar os filhos, mas de se reconhecer como mulher, como profissional e buscar autonomia financeira”, analisa a empreendedora.

E celebra o retorno ao mercado de trabalho por meio do próprio negócio: “O que tratava como hobby é agora minha profissão. Isso é muito gratificante. Foram anos muito difíceis para conciliar tudo, mas venci. A enchente levou muita coisa embora, mas faz parte da caminhada. Hoje estou construindo um novo sonho. Minha história de resiliência é longa e, toda vez que conto, me pergunto como consegui e como ainda consigo me reinventar. É por ser mulher, eu acho”, finaliza Tatiana.



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