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Da Venezuela ao RS, mãe migrante aprende a respeitar os próprios limites para empreender com saúde

  • Foto do escritor: Territorialize
    Territorialize
  • 2 de jun.
  • 4 min de leitura

Interromper rotina de sobrecarga e manter saúde mental foi medida de proteção para si mesma e para as filhas


Keidy e a família: empreender foi o caminho encontrado pela venezuelana para conciliar geração de renda com os cuidados e necessidades das filhas
Keidy e a família: empreender foi o caminho encontrado pela venezuelana para conciliar geração de renda com os cuidados e necessidades das filhas

Keidy Karelys tem 30 anos, é mãe de duas filhas Jamilah, de sete anos, e Jasmim, de um ano e dois meses e mora em Canoas (RS). Natural da Venezuela, chegou ao Brasil com o esposo em maio de 2018. Passou por Boa Vista (RR) e Manaus (AM), onde engravidou e teve a primeira filha. Em 2019, com a bebê recém-nascida nos braços, iniciou sua trajetória empreendedora em solo brasileiro, vendendo cosméticos por catálogo.


No mesmo ano, a família se mudou para o Rio Grande do Sul. Assim que conseguiu uma vaga em creche para a filha, Keidy buscou uma oportunidade de trabalho com carteira assinada. Em plena pandemia, trabalhou como repositora em um supermercado e, posteriormente, em uma gráfica têxtil. No entanto, em pouco tempo percebeu que a rotina do emprego formal não era compatível com as necessidades da família. “Eu era chamada tantas vezes porque minha filha estava doente na creche que já ia trabalhar com o coração acelerado. Era febre alta, otite, amigdalite... Então foi uma escolha minha, decidi ficar com ela no dia a dia”.


Embora reconheça as vantagens da CLT, como a previsibilidade da renda e a definição clara da jornada de trabalho, Keidy considera que esse modelo não se encaixa no momento atual da família. As demandas de cuidado e acompanhamento das filhas exigem uma flexibilidade que ela só consegue encontrar no trabalho por conta própria – empreendendo.


Capacitação para crescer sem abrir mão da maternidade


Em 2025, ao participar da capacitação Avança Mulher Empreendedora, realizada em parceria com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Keidy levou as duas filhas para a sala de aula. A cena não era novidade. Desde que chegou ao Sul do país, a venezuelana encontrou uma forma de não interromper sua busca por qualificação: levava as crianças consigo para todos os cursos que fazia de elétrica, hidráulica e construção civil. Em um deles, estava grávida. Em outro, participou das aulas com a bebê de apenas quatro meses.


Keidy com a filha em um dos cursos que realizou: para muitas mães, capacitação só é possível se puderem levar as crianças
Keidy com a filha em um dos cursos que realizou: para muitas mães, capacitação só é possível se puderem levar as crianças

“Só pude fazer cursos quando era permitido levar crianças”, destaca Keidy, que não se arrepende dos esforços compartilhados com as filhas para continuar aprendendo e se desenvolvendo profissionalmente.


Após concluir a capacitação e receber mentoria individualizada, a empreendedora reorganizou sua rotina, aprendeu a utilizar planilhas de gestão, aprimorou a divulgação do negócio e ampliou o portfólio de produtos e marcas oferecidos ao público feminino. O resultado foi uma melhora direta nas vendas e na qualidade de vida da família.


Com a chegada da segunda filha, em 2025, a rotina de Keidy se tornou ainda mais intensa. Hoje, ela se divide entre a gestão do negócio fotografando produtos, produzindo conteúdo para as redes sociais e atendendo clientes e as tarefas domésticas, os cuidados com as filhas e o acompanhamento dos estudos das duas. “Às vezes, meu Deus, é bem difícil: não consigo nem pegar o celular para responder uma mensagem, que a pequena chora, grita, não quer nem que eu chegue perto do aparelho. Ela quer minha atenção”, relata a empreendedora, bem-humorada.


Flexibilidade para seguir em frente


Depois de muitos desafios, ela precisou estabelecer uma rotina clara para conseguir administrar tantas responsabilidades. Pela manhã, dedica-se ao marketing digital, recorrendo à programação de TV para entreter a caçula. À tarde, descansa com a filha menor, ajuda a mais velha nas tarefas escolares e só responde aos clientes no final do dia.


Para tornar a rotina mais viável, as entregas e visitas foram concentradas nos fins de semana, quando pode contar com o marido para dirigir. Juntos, acompanhados das filhas, percorrem uma rota previamente planejada para agilizar o trabalho. Em visitas rápidas, conseguem deixar as meninas sob os cuidados da bisavó.


Keidy e as filhas, Jamilah e Jasmim
Keidy e as filhas, Jamilah e Jasmim

A organização e a flexibilidade adotadas pela venezuelana são resultado da clareza construída ao longo dos anos de que a maternidade ocupa um lugar central em sua vida. Também refletem o reconhecimento de que é preciso respeitar as necessidades e os limites de todos em casa, inclusive os próprios. Esse aprendizado surgiu a partir de uma experiência-limite.


Logo após o nascimento da filha mais nova, Keidy precisou interromper as vendas por três meses. Ela conta que tentou manter o negócio funcionando, mas rapidamente percebeu que precisava priorizar a própria saúde mental e os cuidados com o bebê. “Eu não dormia de noite, tinha a outra filha para atender, preparar a comida, as clientes que chamavam... Era muita coisa ao mesmo tempo. Mentalmente, não conseguia mais, não tinha como dar conta. Quando me senti melhor, recomecei”, desabafa Keidy, lembrando que a sobrecarga afetava tanto a maternidade quanto o desempenho profissional.


Gerar a própria renda sempre foi um objetivo da venezuelana. Hoje, ela afirma que consegue dedicar atenção às filhas sem o desespero financeiro de outros momentos porque conta com o apoio do esposo, que trabalha com serviços elétricos e assume as principais despesas da casa. Para Keidy, o empreendedorismo não é uma narrativa idealizada de sucesso, mas uma ferramenta construída a partir das condições concretas da sua realidade.




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