Trabalho e empreendedorismo abrem caminhos para falar de saúde mental

No Setembro Amarelo, empreendedoras que enfrentaram a depressão mostram como autonomia, confiança, vínculos e propósito podem contribuir para o bem-estar psíquico
Trabalho e saúde mental mantêm uma relação complexa, envolvendo dimensões como propósito e pertencimento. Se, por um lado, a atividade profissional pode proporcionar renda, realização e convivência social, em ambientes marcados por sobrecarga, insegurança e pouca autonomia também pode produzir sofrimento psíquico.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), depressão e ansiedade provocam a perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com impacto negativo de US$ 1 trilhão anual em produtividade. A OMS também aponta o desemprego, a perda recente do trabalho e a insegurança financeira como riscos à saúde mental, associados inclusive a um maior risco de tentativas de suicídio.
Mas ter trabalho, por si só, não basta. Sobrecarga, baixo controle sobre a atividade, insegurança, discriminação e condições inadequadas também figuram entre os riscos psicossociais. Em condições favoráveis, por outro lado, o trabalho pode contribuir para confiança, propósito, vínculos e participação social. O trabalho, portanto, pode proteger ou prejudicar a saúde mental.
Essa combinação de possibilidades e desafios marca as histórias de quatro mulheres capacitadas em projetos de empreendedorismo realizados pela Territorialize. Em diferentes momentos de suas trajetórias, Beatriz, Vanessa, Cláudia e Amanda enfrentaram a depressão e associam o avanço de seus projetos profissionais a mudanças na forma como passaram a enxergar a si mesmas, o trabalho e o futuro.
São experiências, individuais, não fazem do empreendedorismo um tratamento para a depressão, mas ajudam a refletir sobre os diferentes espaços que o trabalho pode ocupar na vida e no bem-estar.
Quando o trabalho também adoece

Para a gastrônoma Beatriz Amaral (à direita), de Rio Grande (RS), foi justamente a sobrecarga profissional que acendeu o alerta. Mãe solo de dois filhos neurodivergentes, sem uma rede familiar por perto, ela chegou a trabalhar até 14 horas por dia em restaurantes de Santa Catarina. Entre a rotina profissional e as demandas dos filhos, o desgaste se tornou visível até mesmo dentro de casa e para quem mais precisava dela. “Acho que está na hora de parar um pouco porque tu estás muito desgastada fisicamente, não é, mãe?”, ouviu do filho mais velho.
A exaustão resultou em um quadro de depressão e levou Beatriz a retornar ao Rio Grande do Sul. Depois de um período de reorganização, ela participou do projeto Rio Grande Empreendedora e desenhou um caminho que já fazia parte de sua trajetória, reunindo a gastronomia e o ensino. “O que me levantou, com certeza, foi esse curso, trazendo o norte que eu precisava”, conta.
A partir da experiência acumulada, a empreendedora criou a Escola do Sabor, estúdio de gastronomia personalizada. Para equipar gradualmente o espaço, sem assumir novos riscos financeiros, Beatriz voltou temporariamente ao emprego formal, agora em novas bases, e utiliza parte do salário para investir no próprio negócio. Mais do que uma oposição entre carteira assinada e empreendedorismo, sua história revela a busca por uma forma sustentável de trabalho e realização. Para Beatriz, a própria ideia de sucesso passou a incluir aspectos que não cabem apenas em metas profissionais: “Hoje em dia, sou muito feliz, porque, quando chego em casa, tenho paz e harmonia com meus filhos. Isso não tem preço”.
Confiança para voltar a fazer planos
Um estudo publicado no Journal of Business Venturing, feito com trabalhadores na Suécia, encontrou uma relação entre atividades empreendedoras e maior bem-estar. Entre os fatores que ajudaram a explicar o resultado estavam a autonomia, a percepção de competência e os vínculos.
No caso de Vanessa Gilmara (abaixo), voltar a acreditar na própria capacidade foi parte importante do recomeço. Ela trabalhava em regime CLT e tinha experiência com vendas quando atravessou um período de depressão e ansiedade que a levou ao afastamento do trabalho. Ao buscar uma nova alternativa profissional por conta própria, porém, esbarrou nas dúvidas. “Eu não me sentia encorajada. Questionava se era capaz, se teria espaço no mercado, como faria para recomeçar. Era tudo muito confuso.”

Convidada por uma amiga, Vanessa participou do Avança Mulher Empreendedora. Ali, o contato com mulheres em busca de começar ou aprimorar seus negócios criou um espaço de troca que ela considera decisivo: “Ver aquelas mulheres contando suas histórias foi essencial. Dentro da turma, encontrei apoio, incentivo e informações que me deram coragem”, relata.
Ela investiu parte da rescisão no negócio de roupas e retomou o contato com um antigo fornecedor. Hoje, concilia as vendas com o trabalho formal e avança gradualmente: “O Avança me deu exatamente o impulso que eu precisava. Foi o entusiasmo que me tirou de um lugar de descrença e me fez acreditar novamente”.

Em Igarassu (PE), Amanda Dias da Rocha (à esquerda) também relaciona a estruturação do próprio negócio a uma mudança na forma como passou a enxergar suas possibilidades. Ao participar do Gerdau Transforma, ela vivia um período marcado pela depressão e passou a desenvolver a Dias Art Gráfica. “Minha comunicação melhorou 100%, me livrei de uma depressão e a minha qualidade mental foi elevada em dimensões inexplicáveis”, afirma Amanda. A empreendedora destaca, ainda, outro efeito ainda mais concreto: confiança para voltar a projetar o próprio futuro: “Esse curso é maravilhoso porque nos traz a confiança para avançar nos nossos sonhos”, destaca a empreendedora, que planeja abrir uma loja física na cidade para o seu negócio.
Vínculos e propósito também entram na conta
Nas histórias das participantes, é possível perceber a vitalidade que muitos empreendedores encontram no trabalho por conta própria – uma relação também encontrada por um estudo realizado com mais de 22 mil pessoas de 16 países europeus.

Outro exemplo vem de Canoas (RS), onde Cláudia Bittencourt (à direita), participante do Avança Mulher Empreendedora, encontrou na escrita uma forma de cuidado e elaboração durante seu processo de enfrentamento da depressão. A experiência pessoal acabou atravessando também sua trajetória profissional. Aos 52 anos, ela atua como terapeuta, escritora e mentora e criou o projeto No Divã com as Amigas.
Cláudia reúne mulheres em encontros e atividades de autoconhecimento e escrita terapêutica. Em seu trabalho, defende um princípio que nasceu também do próprio percurso: quem cuida precisa ser cuidado. “A gente vai para o divã também, eu passo por ele, estou no mesmo lugar em que essas mulheres estão. Porque, a partir do momento em que eu estou bem, aí sim eu estou capacitada para prestar atendimento e segurar a mão de outras mulheres”, avalia.
Uma relação sem fórmula pronta
Os benefícios do trabalho por conta própria, no entanto, também convivem com pressões. Uma meta-análise publicada em 2025, a partir de 143 estudos e 165 amostras independentes, concluiu que o bem-estar de quem empreende é influenciado por uma combinação de condições pessoais, profissionais, financeiras, sociais e contextuais. Mas a autonomia, sozinha, não elimina riscos de sobrecarga e jornadas excessivas.
Não existe, portanto, uma modalidade de trabalho automaticamente protetora da saúde mental. As histórias de Beatriz, Vanessa, Amanda e Cláudia mostram que o caminho está em encontrar um equilíbrio dentro das próprias possibilidades, desejos e momento de vida. O que aproxima os quatro relatos, para além do negócio próprio, é a possibilidade de enxergar novos caminhos: reorganizar a vida, reconhecer capacidades e potenciais, estabelecer vínculos, encontrar significado no que se faz e construir projetos para o futuro.


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