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Da vulnerabilidade à autonomia: projeto celebra a formação de 19 empreendedoras haitianas em Porto Alegre

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    Territorialize
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Com acesso a treinamento prático, mentoria e capital semente, participantes criam negócios próprios para superar barreiras na geração de renda


Mulheres haitianas no último dia de mentoria do projeto Refugiadas Empreendedoras
Mulheres haitianas no último dia de mentoria do projeto Refugiadas Empreendedoras

Depois de três meses de uma intensa jornada de conhecimento e superação, um grupo de migrantes haitianas celebrou, nesta quarta-feira (29/07), em Porto Alegre (RS), o encerramento de uma etapa que abre novas perspectivas para seu futuro profissional no Brasil. Elas concluíram a fase de mentoria no projeto Refugiadas Empreendedoras, iniciativa implementada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em parceria com o Serviço Jesuíta para Migrantes e Refugiados (SJMR) e a agência de fomento social Territorialize.


O percurso da turma, composta por 19 haitianas residentes na capital gaúcha, começou no mês de maio com aulas teóricas sobre o mercado brasileiro e planejamento em negócios. Em seguida, as alunas contaram com três meses de mentoria individualizada durante a fase de incubação de negócios. As participantes também receberam um incentivo financeiro, em forma de capital semente, para alavancar seus pequenos empreendimentos. Como resultado, quase todas saíram com seus modelos de negócios estruturados e várias já estão em plena atividade.


De mulheres do lar a empreendedoras


A consultora Genesis Morales, que atuou como mentora do grupo, destaca o potencial de transformação das alunas ao longo do processo. Se, no início do curso, apenas quatro delas tinham negócios em andamento, ao término da capacitação praticamente todas haviam definido seu ramo de atuação, concentrando-se nos setores de alimentação, vestuário e estética.


Segundo a facilitadora, além da óbvia escassez de recursos, grande parte das mulheres enfrentou insegurança, constrangimento e medo de empreender por estarem imersas exclusivamente em demandas domésticas e familiares, sem uma percepção de suas capacidades profissionais. “Apesar das dificuldades, elas têm garra, determinação e uma vontade imensa de aproveitar as oportunidades. São mulheres extremamente trabalhadoras, esforçadas e criativas. A maioria delas descobriu um potencial que antes desconhecia. Vimos alunas que começaram o curso sem nenhum insumo e que, na última aula, já apresentavam produtos adquiridos ou confeccionados por elas. O projeto direcionou esse esforço e deu a elas a segurança para avançar”, avalia Genesis.


Autovalorização e impacto


Dolores recebendo sua marca e certificado
Dolores recebendo sua marca e certificado

O resgate da autoconfiança redesenhou a rotina de mulheres como Dolores Saint Victor Joseph, de 31 anos. Mãe de dois filhos, antes da capacitação ela empregava seu talento com decoração de eventos apenas de forma voluntária na igreja que frequenta – e o curso foi o ponto de virada para enxergar o potencial da atividade como empreendimento. Com o capital semente, Dolores comprou os primeiros arcos decorativos profissionais e já conquistou seus primeiros clientes pagantes.


“O curso foi maravilhoso. Nunca tinha nem ouvido falar em pró-labore, nem sabia que poderia cobrar pelo que eu fazia. Aprendi a valorizar meu trabalho e percebi que ele poderia virar uma fonte de renda. Nós, haitianos, gostamos de trabalhar sem patrão. Tem muita gente que quer empreender, mas não sabe como dar o primeiro passo e, com esse curso, conseguimos começar”, diz Dolores, que pretende ampliar sua atuação para casamentos, festas e eventos corporativos, dando vida, também, ao seu desejo de trabalhar como cerimonialista.


Para a confeiteira Megane Georges, de 30 anos, a capacitação trouxe novo ritmo e perspectivas ao trabalho por conta própria que ela vinha realizando há um ano para complementar a renda obtida no emprego de carteira assinada. A capacitação lhe permitiu superar a informalidade, estruturar a gestão financeira, ajustar preços e ampliar lucros. Resultados que estão criando bases para planejar a expansão do negócio caseiro, a M&G Delícia Confeitaria, para um ponto comercial.


“O curso me motivou muito. Eu não tinha cartão de visitas, recibo ou CNPJ. Isso faz muita diferença, dá mais segurança e agora vai me ajudar a crescer. Primeiro, preciso trabalhar para ganhar o dinheiro, para depois investir e fazer acontecer”, destaca Megane. Ela também ressalta a importância do curso para a comunidade migrante: “Começar com apoio faz toda a diferença. Porque o começo é bem difícil e, quando não se tem um norte, muitas vezes as pessoas desistem pelo caminho. "O curso foi uma oportunidade de ouro pra mim e para todas nós”.


Megane, confeiteira, exibe orgulhosa um de seus produtos
Megane, confeiteira, exibe orgulhosa um de seus produtos

Para o Produtor Executivo da Territorialize em Porto Alegre, Matheus Rosário, o Refugiadas Empreendedoras é, antes de tudo, um gesto de acolhimento, que vai além da assistência. “Essas mulheres cruzam o oceano carregando a esperança de reconstruir suas vidas com dignidade — e o empreendedorismo se torna a ferramenta que transforma esse sonho em algo concreto. Quando uma migrante aprende a estruturar seu negócio, a entender os caminhos da formalização e a enxergar seu próprio potencial, não está apenas gerando renda: está recuperando a autonomia que a migração, muitas vezes, abala. Cada plano de negócio concluído é um passo da vulnerabilidade para a independência e a prova de que, com direção certa, é possível não apenas sobreviver em um novo país, mas florescer”, avalia o gestor.


Essa foi a segunda turma formada pelo projeto. A primeira edição da iniciativa, realizada em 2025, foi direcionada para migrantes venezuelanas. O Rio Grande do Sul abriga hoje mais de 127 mil pessoas migrantes e refugiadas, sendo os venezuelanos e haitianos dois dos principais grupos estrangeiros em situação de vulnerabilidade no estado. De acordo com a ACNUR, a maior parte das famílias vive menos de um salário mínimo regional, e gerar novas fontes de renda é o maior desafio. 





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