Do voluntariado ao primeiro negócio: haitiana transforma talento em profissão

Capacitação ajuda Dolores a reconhecer o valor do próprio trabalho e a dar os primeiros passos como empreendedora no setor de eventos

Tudo começou com flores de papel feitas ao lado da mãe, quando criança, ainda no Haiti. Anos depois, já estabelecida em Porto Alegre (RS), Dolores Saint Victor Joseph encontrou na decoração de eventos da igreja que frequenta um espaço para exercitar de forma voluntária as antigas habilidades — sem imaginar que poderia transformá-la em uma fonte de renda.
Enquanto estava em seu país de origem, Dolores dedicava-se aos estudos. Logo que migrou para o Brasil, chegou a trabalhar, mas interrompeu a trajetória profissional com a chegada dos filhos. Mais tarde, além de se dedicar aos cuidados com a família, passou a contribuir com a comunidade religiosa, mas sem considerar a ideia de cobrar por seu trabalho.
Foi somente em 2026, ao participar do projeto Refugiadas Empreendedoras, que Dolores passou a enxergar a atividade que realizava como um serviço pelo qual poderia cobrar, capaz de gerar renda e abrir caminhos para conquistar um espaço profissional que nunca tinha ocupado antes.
Hoje, com 31 anos e mãe de dois filhos, a haitiana já vive no Brasil há dez anos e sonha em atuar como cerimonialista. Embora já houvesse buscado cursos na área, os custos impediam que esse plano saísse do papel. Quando descobriu a capacitação oferecida pela ACNUR em parceria com a Territorialize, enxergou a oportunidade que desejava.
Ao longo das aulas, Dolores descobriu conceitos como pró-labore, formação de preços e planejamento financeiro. Mais do que aprender ferramentas de gestão, passou a compreender que sua criatividade, seu tempo e sua dedicação também faziam parte do valor entregue aos clientes. “O curso foi maravilhoso. Aprendi muita coisa que nem imaginava existir. Eu nem sabia que poderia cobrar pelo que fazia. Nunca tinha ouvido falar em pró-labore e que poderia ter uma fonte de renda. Graças a Deus, agora já comecei e tenho as ferramentas certas para continuar. Só tenho a agradecer a quem proporcionou essa oportunidade”, afirma.

Com o capital semente oferecido pelo projeto, a empreendedora adquiriu o primeiro arco decorativo profissional, criou um perfil no Instagram para divulgar seus serviços e conquistou seis clientes pagantes ainda durante os três meses da capacitação. Os novos conhecimentos também ampliaram seus planos: se antes sonhava em trabalhar somente como cerimonialista, agora Dolores quer estruturar um negócio capaz de oferecer uma experiência completa aos clientes, reunindo espaço próprio para realização de eventos, decoração e cerimonial.

“Quero ser cerimonialista, mas também ter um salão de festas para oferecer o serviço completo. Estou avaliando bem a localização e fazendo um planejamento cuidadoso para dar mais segurança ao negócio”, planeja.
Para ela, a maior transformação foi perceber que um talento cultivado por amor e dedicação ao próximo também poderia gerar renda e abrir novas possibilidades. Hoje, Dolores incentiva outros migrantes a aproveitarem oportunidades como a oferecida pelo Refugiadas Empreendedoras e acredita que o acesso ao conhecimento faz a diferença para quem deseja trabalhar por conta própria e crescer. “Nós, haitianos, gostamos de trabalhar sem patrão. Tem muita gente que quer empreender, mas não sabe como dar o primeiro passo. Com um curso como esse, conseguimos começar”, comemora a empreendedora.


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