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Maternidade e empreendedorismo em jornada solo: do esgotamento no trabalho ao próprio estúdio de culinária

  • Foto do escritor: Territorialize
    Territorialize
  • 2 de jun.
  • 4 min de leitura

Redes de apoio femininas foram decisivas para empreendedora de Rio Grande sustentar dois filhos neurodivergentes


Beatriz no dia da entrega do certificado do curso oferecido pelo projeto Rio Grande Empreendedora
Beatriz no dia da entrega do certificado do curso oferecido pelo projeto Rio Grande Empreendedora

Natural de Rio Grande (RS) e mãe de Pedro, de 17 anos, e Arthur, de 9, Beatriz Amaral conhece bem o peso da jornada solo. Ainda na faculdade de gastronomia, mesmo casada, enfrentava a falta de divisão das tarefas domésticas. Enquanto o então esposo viajava frequentemente a trabalho, ela acumulava a gestão da casa, os cuidados com o filho mais velho, os estudos e o emprego como instrutora de culinária.


Durante o estágio final da graduação, Beatriz engravidou do segundo filho, precisou de repouso absoluto e passou a imaginar alternativas para gerar renda, conquistar autonomia financeira e estar mais presente em casa. Para ela, os filhos tornaram-se o principal motor na busca pelo trabalho por conta própria. “Meus filhos foram e são minha maior motivação para empreender”, afirma Beatriz.


Em 2018, enfrentando dívidas e com o caçula ainda bebê, usou o único recurso financeiro disponível o limite do cartão de crédito para comprar ingredientes e preparar os primeiros brigadeiros e brownies que passou a vender em empresas. Os sabores diferenciados e a qualidade dos produtos fizeram o negócio prosperar rapidamente e atraíram um investidor, o que permitiu à empreendedora abrir um café colonial.


A trajetória promissora, no entanto, foi interrompida pela pandemia. Após o fim de um relacionamento conturbado, já separada e em busca de novas formas de sustento, Beatriz foi atraída pelos altos salários oferecidos em oportunidades no mercado formal de trabalho em Santa Catarina, para onde se mudou com os dois filhos.


As consequências da sobrecarga e o início da mudança


A promessa de ganhos com carteira assinada, porém, esbarrou na falta de suporte. Trabalhando em restaurantes renomados, com jornadas exaustivas de até 14 horas por dia e sem uma rede de apoio familiar por perto, Beatriz passou a enfrentar dificuldades também com os cuidados dos filhos.


Em dois anos, a dinâmica do emprego formal tornou-se insustentável. A sobrecarga física e a necessidade de deslocamentos constantes para atender às demandas dos filhos cobraram seu preço. Ela conta que o primeiro sinal de alerta veio do filho mais velho, ao perceber o desgaste extremo da mãe: “Ele me disse: 'Acho que está na hora de parar um pouco, porque tu estás muito desgastada, não é, mãe?'".


A exaustão resultou em um quadro severo de depressão e levou a família de volta ao Rio Grande do Sul. O recomeço em Rio Grande exigiu tempo para processar os traumas vividos e contou com o acolhimento dos pais, que permitiu a Beatriz reorganizar sua vida financeira.


Filhos de Beatriz exibem premiação que a empresa da mãe obteve por dois anos consecutivos no município Rio Grande
Filhos de Beatriz exibem premiação que a empresa da mãe obteve por dois anos consecutivos no município Rio Grande

A virada de chave veio com a participação na capacitação Rio Grande Empreendedora, realizada em parceria com a Portos RS e o Sicredi Interestados. “O que me levantou, com certeza, foi esse curso, trazendo o norte que eu precisava”, diz Beatriz, que mobilizou a bagagem acumulada em dez anos como instrutora para inovar e voltar a empreender.


Assim nasceu a Escola do Sabor, seu estúdio de gastronomia personalizada, onde os alunos podem aprender exatamente o que procuram, sem a necessidade de seguir currículos engessados como os das escolas tradicionais de gastronomia. “Ensinar é uma das coisas que eu mais amo e sei como resolver os problemas dos meus alunos”, celebra Beatriz.


Para viabilizar o projeto sem contrair novas dívidas, Beatriz adotou uma estratégia realista: voltou temporariamente ao regime CLT em sua cidade natal. Com os filhos mais crescidos, ela atua hoje como investidora de si mesma, direcionando o salário fixo para a compra dos equipamentos necessários para o estúdio.


Maternidade atípica e o suporte de outras mulheres


Ao longo da trajetória para conciliar maternidade e empreendedorismo, Beatriz considera que o maior desafio sempre foi acompanhar a vida escolar dos filhos, especialmente a do primogênito, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Desde cedo, ele demandou acompanhamento terapêutico e atenção redobrada diante das dificuldades de aprendizagem. “Ele sempre fez tratamentos psicológicos que nos ajudaram muito. Agora, não tem mais surtos, é um adolescente tranquilo”. 


O filho caçula, Arthur, também convive com TDAH. As duas condições reforçaram ainda mais a motivação de Beatriz para empreender e gerar renda suficiente para garantir o melhor acompanhamento possível aos filhos. Ao longo da jornada como mãe solo, ela destaca que o principal suporte para seguir empreendendo veio de outras mulheres. “Nunca tive uma porta fechada”, diz a empreendedora, lembrando do acolhimento recebido em eventos e iniciativas nos quais levar as crianças era encarado como uma prática de inclusão, e não como um obstáculo.


A participação em coletivos e redes de apoio permitiu que ela enxergasse seus desafios diários não como falhas individuais, mas como uma realidade compartilhada por muitas outras mães. “Vi que os meus problemas não eram só meus, eram nossos”, avalia Beatriz, que hoje integra diversos grupos de mulheres empreendedoras em sua cidade. “As mulheres sempre ajudaram muito para eu não desistir nessa caminhada. Um apoio fundamental não só no aspecto psicológico, mas também como meio de encontrar estratégias práticas para solucionar nossos problemas”, defende.


O papel desses grupos foi ainda mais relevante porque Beatriz enfrenta resistência dentro da própria família. Seus pais não apoiam a ideia de ter um negócio próprio e continuam defendendo que ela busque a aprovação em um concurso público. Para a empreendedora, porém, essa divergência acaba funcionando como mais um incentivo para consolidar sua empresa e demonstrar a viabilidade de seu projeto de vida. "Eles não entendem que sou feliz sendo empreendedora e é isso que quero para a minha vida. Sei que minha empresa vai dar certo. Ainda não cheguei lá, mas tenho certeza de que vou consolidar meu negócio", acredita.


Longe da narrativa da “mulher que dá conta de tudo”, que marcou os primeiros anos de sua trajetória, Beatriz vem construindo uma rotina mais realista e um futuro desenhado por suas próprias escolhas. Para ela, sucesso não é atingir metas corporativas inalcançáveis, mas conquistar harmonia, estabilidade e tempo de qualidade com os filhos. “Passei por cinco faculdades, até achar o meu caminho. Hoje em dia, sou muito feliz, porque, quando chego em casa, tenho paz, harmonia com meus filhos, sem precisar passar por violência física e psicológica como já vivi no passado, e isso não tem preço”, finaliza.


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