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Maternidade e negócios: os desafios reais e estruturais do empreendedorismo materno

Foto do escritor: Territorialize
Territorialize
2 de jun.
6 min de leitura

Rede de apoio é diferencial na rotina de múltiplas demandas para conciliar geração de renda e cuidados com os filhos


Histórias de quatro mães empreendedoras que passaram pelos projetos da Territorialize mostram o que está em jogo para quem precisa maternar e empreender
Histórias de quatro mães empreendedoras que passaram pelos projetos da Territorialize mostram o que está em jogo para quem precisa maternar e empreender

Para muitas mulheres, a busca pelo empreendedorismo não é fruto de um sonho, mas determinada pela urgência financeira e pela necessidade de acompanhar o desenvolvimento dos filhos. Esses dois objetivos nem sempre são viáveis simultaneamente na jornada de horários fixos de empregos formais, principalmente na ausência de uma rede de apoio robusta e da participação efetiva do pai das crianças.


Na prática, trabalhar em casa exige um grande esforço para gerir o acúmulo de tarefas das duas esferas – profissional e familiar. Além disso, a saúde dos filhos é, ainda, um desafio adicional para mães empreendedoras, que se reinventam, testam seus limites e buscam apoio em redes coletivas para persistir.


A consciência dessas dificuldades e a recusa em romantizar a sobrecarga feminina não anulam, porém, a potência e a beleza das escolhas e atitudes geradas pela dedicação materna. Pelo contrário, a necessidade de abrir espaço à maternidade em momentos de crise tem levado as mulheres a buscarem novos perfis de atuação profissional, revelando talentos e habilidades alinhados com sua essência e antes desconsiderados.


Sem deixar de considerar a dureza e as dificuldades da vida real, as histórias de quatro mulheres empreendedoras que passaram pelas capacitações da Territorialize demonstram que amor, responsabilidade e cuidado com os filhos funcionam como motores de sobrevivência e adaptação.


No cenário atual, as empreendedoras destacam a importância da troca de experiências entre mulheres que lutam para conciliar a maternidade com sustento, geração de renda e realização profissional. Revelam, também, a busca incessante por organização e disciplina para gerir o tempo, o cotidiano e as demandas pessoais, familiares e profissionais.


Entre pausas e recomeços, a adaptação da rotina para seguir empreendendo


Moradora de Esteio (RS), Daniela Mendonça do Amaral, tem 43 anos e é mãe de três filhos. Manicure desde a adolescência, ela precisou interromper sua trajetória empreendedora por muitos anos, em vários momentos da vida, para priorizar as necessidades dos filhos.


Duas gestações seguidas, diagnóstico de Transtorno de Hiperatividade e Déficit de Atenção (TDAH) do caçula e um longo processo de recuperação emocional de um dos filhos mais velhos em função de uma situação de racismo foram determinantes para que a empreendedora optasse por deixar o trabalho de lado para atender com exclusividade às demandas da maternidade. Com apoio do marido, que supre as despesas da casa, ela sempre esperou pelo momento de retomar a atividade por conta própria.


Mesmo com as idas e vindas em seu percurso, ela jamais considerou desistir: “Eu amo o que faço. Sou aquela manicure e pedicure raiz, que coloca o pé de molho, faz massagem e prepara café com bolo pra esperar as clientes. Nem pensar em desistir”, diz a empreendedora, que encontrou no projeto Baita Empreendedor - Reconstrução a oportunidade de se reconectar com o mercado e criar laços além do ambiente doméstico.


“O dia a dia é puxado, principalmente com dois adolescentes em casa. Priorizo os filhos, claro, mas não quis abrir mão de participar. Eu quero aprender mais”, pontua a empreendedora. Para Daniela,a experiência foi valiosa não só pelos conhecimentos obtidos, mas pela troca de experiências e conexões a que teve acesso durante a capacitação.



A busca por renda e o respeito aos limites de saúde mental e da maternidade real


A trajetória da venezuelana Keidy Karelys, de 30 anos, moradora de Canoas (RS), também reflete o cenário de mulheres que encontram no empreendedorismo uma saída para conciliar geração de renda e o cuidado das filhas, com o agravante da necessidade de adaptação em um novo país.


Migrante venezuelana e mãe de duas meninas, Keidy Karelys, de 30 anos, iniciou a venda de cosméticos por catálogo logo após chegar ao Brasil. Tentou o mercado CLT, mas a rotina faliu quando a filha mais velha passou a adoecer com frequência na creche. “Eu já ia para o trabalho com o coração acelerado", relembra.


No pós-parto da caçula, exposta a uma rotina exaustiva, Keidy tomou a decisão corajosa de pausar o negócio por três meses para salvar a própria saúde mental. Com o curso oferecido pelo projeto Avança Mulher Empreendedora, ela conseguiu reorganizar sua rotina e seus processos para retomar a jornada empreendedora de forma saudável e sustentável.




Filhos são desafio e motivação na jornada solo de mãe empreendedora no ramo da gastronomia


Formada em gastronomia, Beatriz Amaral, de 39 anos, moradora de Rio Grande (RS), viveu na última década um intenso processo de transformação enquanto sustentava sozinha dois filhos neurodivergentes – hoje com 9 e 17 anos e diagnósticos de TEA e TDAH, respectivamente. O percurso incluiu o início de um empreendimento de doces personalizados, criado por necessidade, um divórcio conturbado, sucessivos ciclos de endividamento e o colapso de uma iniciativa no trabalho formal. Diante desse cenário, precisou voltar a morar com os pais para enfrentar um quadro de depressão severa e reorganizar sua vida financeira.


Nas aulas de empreendedorismo do projeto Rio Grande Empreendedora, Beatriz se fortaleceu e retomou a atividade empreendedora em novos patamares, estruturando a Escola do Sabor, um estúdio de culinária com foco na oferta de cursos personalizados para demandas individuais de clientes.


Ao longo da jornada como mãe solo, Beatriz aponta que o principal suporte para empreender sempre veio de outras mulheres. “Nunca tive uma porta fechada”, diz a empreendedora. A participação em grupos de mulheres empreendedoras, para ela, sempre foi um verdadeiro porto seguro de inclusão real, permitindo desde o acolhimento logístico dos filhos em eventos profissionais até a troca de soluções práticas para crises do dia a dia. 


No curso, Beatriz encontrou acolhimento e entendeu que não precisava enfrentar seus desafios sozinha. “Vi que os meus problemas não eram só meus, eram nossos. Foi um apoio fundamental, para encontrar soluções de problemas em comum”, ressalta, demonstrando que a potência feminina e materna se multiplica quando mulheres decidem apoiar umas às outras.



A busca incessante por disciplina e organização: imperativo ainda maior para gerenciar o cotidiano no caso de mães atípicas  


Tatiana Freitas, de 51 anos, formou-se em Arquitetura aos 47, após uma vida inteira dedicada à maternidade. Em 2024, porém, a enchente histórica em Porto Alegre destruiu sua casa e o escritório que levara uma década para estruturar. No mesmo período, ela ainda precisou lidar com o diagnóstico tardio de autismo da filha, de 15 anos.


Aluna dos projetos Avança Mulher Empreendedora e Mulheres Transformam, Tatiana encontrou nas capacitações um espaço de conexão e aprendizado e a oportunidade de recomeço de que precisava. A partir das aulas e orientações recebidas, ela migrou para a papelaria artesanal e fundou o Ateliê Libélula Azul, dedicado a produzir planners e cadernos costurados à mão, com capas e miolos personalizados conforme o desejo e identidade de cada cliente. “A área criativa é minha essência. No fundo, só mudei o produto. Continuo traduzindo as necessidades das pessoas em cores, formas e materiais”, explica.


O caminho de volta ao empreendedorismo passou por reinventar habilidades que já faziam parte de sua essência e adaptá-las a uma atividade viável diante dos desafios que enfrentava. Dessa trajetória nasceu também um propósito: ajudar as pessoas a desacelerar e a se reconectar consigo mesmas por meio da escrita, inspiração que surgiu durante o acompanhamento dos tratamentos da filha.


Ao conciliar maternidade atípica e empreendedorismo, Tatiana tem transformado a flexibilidade em uma ferramenta fundamental para a organização da rotina e a sustentabilidade da vida familiar. “Vestir a camiseta de mãe é muito desafiador. Muitas vezes não é possível cumprir o planejamento, porque surgem demandas inesperadas e é preciso refazer tudo, sem trazer peso para isso”, pondera.


Tatiana destaca também a importância das redes de apoio familiar e femininas para alcançar a autonomia. “A minha família é meu porto seguro. Mesmo eu estando à frente, eles me abraçam e me apoiam quando preciso. Não tem como a mulher andar sozinha. É muito triste ver nos grupos quantas mulheres não têm esse apoio. Muitas enfrentam tudo sozinhas, por isso a importância de participar de grupos de apoio femininos”, ressalta.





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